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quarta-feira, 16 de março de 2011

As tecnologias de informação e comunicação no ensino médio

José Armando Valente


As tecnologias de informação e comunicação (TICs) podem ser úteis e ajudar muito o processo de ensino-aprendizagem, como podem também atrapalhar. Tudo depende do olhar pedagógico e das funções que são atribuídas a elas. Assim, para responder a essa questão, é fundamental entender o papel que as TICs desempenham no ensino médio.

Se observarmos os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) do Ensino Médio (PCN, 2000), veremos que criam amplas possibilidades para a exploração das tecnologias e que colocam a tecnologia como tema central. Ela permeia as três áreas do conhecimento, a saber: linguagens, códigos e suas tecnologias; ciências da natureza, matemática e suas tecnologias; ciências humanas e suas tecnologias.

Os processos tecnológicos próprios de cada área permitem contextualizar os conhecimentos de todas as áreas e disciplinas na vida profissional a ser trilhada pelo educando. A ideia é realmente superar a dua­lidade profissional ou acadêmica, quer o aluno siga o ensino médio profissionalizante ou o acadêmico. A presença das tecnologias na sociedade contemporânea é uma realidade que o aprendiz, como cidadão, deverá dominar. 

As TICs deixaram de ser entendidas como "ferramentas" com as quais podemos realizar determinadas tarefas. Elas estão sendo incorporadas ao nosso modo de ser, de interagir com os serviços e produções de bens, diminuindo os espaços e tempos de comunicar, de acessar e receber informação. Logo, começam a influenciar o nosso modo de agir e pensar, passando a ser estruturantes do nosso pensamento (Almeida e Valente, 2010). 

Outro aspecto interessante das TICs é o fato de ampliarem o repertório de possibilidades a que o aluno pode recorrer para expressar e representar o seu conhecimento. O meio mais utilizado até o momento tem sido o lápis e papel: tudo o que o aluno realiza é registrado por meio desses recursos tecnológicos. Nesse sentido, o currículo que está atualmente em vigor em nossas escolas foi desenvolvido para a era do lápis e papel. Isso vale para todas as disciplinas indiscriminadamente, do ensino fundamental ao superior. 

No entanto, a disseminação das TICs em nossa cultura contemporânea oferece novas possibilidades de expressão e comunicação, como, por exemplo, a criação e o uso de imagens, som, animação e a combinação dessas modalidades. Portanto, além da aquisição da tecnologia do ler e escrever e da capacidade de usar esses conhecimentos em práticas sociais de leitura e escrita, conceituado como letramento (Kleiman, 1995; Soares, 1998), é fundamental o desenvolvimento de diferentes letramentos, ou seja, o digital (uso das tecnologias digitais), o visual (uso das imagens), o sonoro (uso de sons), o informacional (busca crítica da informação) - enfim, os múltiplos letramentos, como têm sido denominados na literatura. 

O fato de as TIC possibilitarem o desenvolvimento de novas competências, como os diferentes letramentos, propõe novos desafios educacionais (Valente, 2007). Alunos e professores devem estar mais familiarizados com elas e saber utilizar os recursos oferecidos para representação do conhecimento, acesso à informação e comunicação. 

Isso significa que o processo de ensino-aprendizagem deve incorporar cada vez mais o uso das TICs para que alunos e educadores possam manipular e aprender a ler, escrever ou expressar-se usando tais modalidades e meios de comunicação. Para que isso aconteça, as TICs devem estar integradas ao currículo, ao que é desenvolvido em todas as disciplinas curriculares, pois podem ajudar na formação de um cidadão preparado para usufruir dos recursos oferecidos pela sociedade do conhecimento. 

Contudo, a realidade de muitas escolas do ensino médio não é bem essa. Primeiro, existem as escolas que usam as TICs como pirotecnia pedagógica, lançando mão de softwares sofisticados tipo terceira dimensão (3D), realidade virtual, realidade aumentada, deixando o aluno imerso em um mundo virtual onde ele tem contato com uma série de fenômenos. Porém, esse envolvimento consiste em assistir ao desenrolar do fenômeno, tendo pouca participação cognitiva. Essa pirotecnia não contribui para o processo de construção de conhecimento e, nesse caso, as TICs têm pouca contribuição. Elas ajudam o marketing da escola!

Outras instituições usam as TICs como apêndice do que acontece em sala de aula. O que vale é o currículo do lápis e papel ­- e, para não dizer que não as utiliza, a escola cria um laboratório de informática onde os alunos podem desenvolver dois tipos de atividades. Um deles é aprender sobre informática, sobre os aplicativos, como o processador de texto, as planilhas, etc. Nesse caso, as TICs ajudam a manter a imagem da escola, mas atrapalham o desenvolvimento curricular, pois ocupam o tempo que poderia estar sendo usado para "passar mais conteúdo". Outro tipo de atividade é o uso das TICs para reforçar o que é transmitido em sala de aula. Aqui os softwares tipo exercício e prática, alguns jogos e tutoriais são extremamente úteis, porque ajudam a preparar o aluno para armazenar e reter mais conteúdo. Nada a ver com a construção de conhecimento e as ideias que permeiam o uso das tecnologias, tal como propostos pelos PCNs.

Como as TICs podem realmente ajudar no sentido do que está sendo discutido? A ajuda aqui consiste no auxílio nos processos de construção de conhecimento sobre conteúdos curriculares, no auxílio no desenvolvimento dos diferentes letramentos e na implantação das ideias propostas nos PCNs. Para tanto, as TICs devem estar integradas às atividades curriculares, ao que é desenvolvido em sala de aula. Seria ótimo se elas pudessem compartilhar com o lápis e papel o mesmo espaço da carteira do aluno, como deve acontecer com os laptops educacionais do Programa Um Computador por Aluno (PROUCA). Porém, as soluções propostas a seguir podem perfeitamente ser realizadas nos laboratórios de informática existentes na maioria das escolas de ensino médio.

As TICs têm uma característica importante: a capacidade de animar objetos na tela e, com isso, ser uma importante ferramenta para complementar ou mesmo substituir diversas atividades que foram desenvolvidas para o lápis e papel. Na área de ciências, por exemplo, muitos fenômenos podem ser simulados, permitindo o desenvolvimento de atividades ou a criação de um mundo do faz de conta, onde certas atividades não são passíveis de ser desenvolvidas no mundo real. 

Softwares para a realização de simulações de fenômenos de física, química, biologia e meio ambiente ou para a exploração de diversos temas em matemática são encontrados na internet, como no site do PhET, do Interactive Simulation Project, desenvolvido pela 

Universidade do Colorado (PhET, 2010). Os softwares são distribuídos sob a licença pública do Creative Commons, podendo ser baixados e usados livremente, segundo as limitações dessa licença. Além de o uso ser facilitado, essa licença permite que os softwares sejam traduzidos para diferentes idiomas e que os usuários possam contribuir com experiências e atividades que foram realizadas usando os softwares de simulação. Assim, no site é possível encontrar ideias sobre experimentos a ser realizados, exercícios a ser resolvidos, etc.

No caso do ensino de física, por exemplo, o uso do software de simulação possibilita a realização de atividades de balística que são muito mais interessantes e significativas do que simplesmente aplicar fórmulas e calcular parâmetros, como ocorre no currículo do lápis e papel. Na Figura 1A, é mostrado o simulador de balística, as diferentes variáveis que afetam esse fenômeno e como podem ser alteradas. Para cada valor escolhido, é possível observar o efeito da queda do projétil com relação ao alvo. Na Figura 1B, foram lançados dois projéteis, um para o ângulo de 80º, colocando o projétil aquém do alvo, e outro para o ângulo de 70º, colocando o projétil além do alvo.

Com isso, o aluno pode estudar o comportamento do projétil nessas duas situações e escolher o ângulo que deve levar o projétil ao alvo. O estudo dessas variáveis e os resultados que elas produzem permitem-lhe entender como afetam o movimento do projétil e construir a representação matemática desse fenômeno. Somente após esse exercício de compreensão do fenômeno e de como as variáveis afetam o comportamento do projétil é que ele deve entrar em contato com a fórmula que realmente descreve esse fenômeno. Em seguida, o aluno pode retornar ao simulador e "brincar" com as variáveis, atestando que elas realmente funcionam segundo a formulação proposta. Ou seja, realizar a atividade usando esse simulador é exatamente o contrário do que acontece no currículo do lápis e papel. Aqui a fórmula vem após a experimentação e a compreensão de como as variáveis afetam o fenômeno, e não no início, como parte da definição do fenômeno.

Softwares de simulação de circuitos elétricos simples podem ser combinados com atividades práticas de laboratório de eletricidade. Assim, situações vivenciadas no circuito real podem ser simuladas pelo software, fornecendo gráficos e tabelas que permitem diferentes representações do fenômeno e, então, os alunos têm outros meios de confrontar resultados com os aspectos teóricos trabalhados. Essa abordagem tem sido utilizada no ensino de física de uma escola de Fortaleza, Ceará, como parte do Projeto ENCIÊNCIAS, desenvolvido no Centro de Ciências da Universidade Federal do Ceará (Ribeiro et al., 2008). 

Em matemática, a animação também pode ser importante para a elaboração de gráficos dinâmicos, como o WinPlot (math.exeter.edu/rparris/winplot.html) ou o Graphmatica (www.graphmatica.com), permitindo que a variação de alguns parâmetros produza efeitos imediatos nos gráficos. Portanto, não tem mais sentido resolver equações polinomiais e encontrar os valores nos quais o polinômio cruza o eixo do "x", como era realizado com o lápis e papel. Os gráficos são dinâmicos e, variando os parâmetros dessas equações, novos gráficos são traçados imediatamente. Os pontos em que a curva cruza o eixo do "x" podem ser visualizados e identificados no gráfico. Por outro lado, o mais interessante a ser realizado com as equações e com os gráficos é entender o papel dos parâmetros e como eles influem na forma das diferentes curvas que são obtidas.

Para que essas atividades possam ser desenvolvidas, é necessário que aprendizes e professores entendam as características e potencialidades que as TICs oferecem, de modo a desenvolver um olhar crítico com relação ao uso dessas tecnologias e como elas são integradas ao currículo, sem serem levados pelos modismos, pelas ondas do consumismo tecnológico. Além disso, é preciso que os professores sejam formados e capazes de implantar essa abordagem em suas respectivas disciplinas. Os recursos existem e podem ser encontrados em diferentes portais na web. O próprio MEC tem desenvolvido o Portal do Professor (portaldoprofessor.mec.gov.br), que dispõe de vários exemplos de softwares e situações de aprendizagem para praticamente todas as disciplinas e níveis de ensino. Porém, se o professor não souber utilizá-los, as TICs por si sós não serão capazes de fazer nenhuma mudança.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, M.E.B.; VALENTE, J.A. Tecnologias e currículo: trajetórias convergentes ou divergentes? São Paulo: Editora Paulus, 2010 (em produção).

BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais (Ensino Médio): Parte I - Bases Legais. Brasília, 2000. Disponível em: . Acesso em: 10 out. 2010.

KLEIMAN, A. Os significados do letramento. Campinas: Mercado de Letras, 1995.

PHET. Interactive Simulations. Disponível em: . Acesso em: 10 out. 2010.

RIBEIRO, J.W.; VALENTE, J.A.; FREITAS, D.B.; MARTINS, D.G.; SANTOS, M.J.C. Integração de atividades de educação em ciências utilizando TICs: uma experiência na formação continuada de educadores do ensino médio. Anais do I Seminário WEB Currículo PUC-SP, São Paulo, 22 e 23 de setembro de 2008.

SOARES, M. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 1998.

VALENTE, J.A. As tecnologias digitais e os diferentes letramentos. Pátio-Revista Pedagógica, Porto Alegre, ano XI, n. 44, nov. 2007, p. 12-15.

Um comentário:

  1. bom dia aqui escrevo de canoas - rs meu nome: Ione Pinto Nascimento- professora de língua portuguesa .
    Lendo sua postagem acima me vi como se fosse eu fazendo uma crítica construtiva sobre os TICs, mas ao mesmo tempo me sentindo a última pessoa em se tratando do bom uso dos mesmos, o que alías, Os professores estaduais não tem um respaldo em se tratando de formar os professores que são mais antigos como eu eheheh, 16 anos de magistério. Fui por mim mesma tentando estar por dentro da tecnologia moderna. Mas o que gostaria de receber de você seria um exemplo de como trabalhar os meios de comunicação nas redes sociais, pois temos um projeto a ser apresentado reunindo todos os professores dos 2ºs anos de ensino médio. O que passa pela cabeça do jovem, por exemplo em relação ao que leem e o que é postado? Como devemos nós professores trabalhar tudo isso?
    certo de sua compreensão e possível dicas , desde já agradeço
    meu email. sora-ionascimento@hotmail.com

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