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segunda-feira, 20 de setembro de 2010

DIÁRIO DE LENNON (oitavo dia)

O começo de tudo...


Dois dias depois de ter desligado o telefone na minha cara, Lucas resolveu me procurar para falar a verdade sobre a vida do seu irmão. Com a ajuda da minha amiga assessora do grupo de música o qual ele faz parte, Lucas conseguiu o endereço da minha casa. Pediu desculpas pela maneira que agiu da última vez e disse que iria contar tudo sobre “o diário de John Lennon Souza da Silva”.
Antes de começar a me falar sobre o pequeno vendedor de pamonhas, Lucas impôs uma condição. Eu não poderia divulgar o seu atual paradeiro, pois ele temia que a sua família o encontrasse. “Afinal de contas eu ainda sou menor de idade e pela lei eles ainda possuem a minha guarda”, disse. O motivo de tanta raiva da própria família é descrito com clareza no depoimento dele, relatado abaixo
Pedindo desculpas novamente, ele confessa a real intenção do diário de Lennon. “Antes de qualquer coisa é preciso esclarecer algo fundamental. John Lennon Souza da Silva nunca existiu. Ele é fruto da minha imaginação. Um personagem que eu inventei para contar um pouco da minha verdadeira história”.
Segundo ele, a verdade e a ficção sempre andaram lado a lado no na história contada no diário. “O que é verdade. A minha mãe trabalha num puteiro, o abuso sexual da minha irmã, a minha tia metida à besta, o local da venda de pamonhas. O resto da história é tudo ficção, como a minha cegueira que é citada no diário. Existem também coisas que foram inventadas, mas baseadas na minha vida real. Como por exemplo, ao invés do abusador da minha irmãzinha ser um vizinho safado, como está na história, na verdade o desgraçado que abusava dela era o meu pai. Aquele frentista que trabalha em Santa Isabel”, disse.
Perguntei por que em nenhum momento do diário ele cita a existência do pai. Pois, na história de John, cada um dos doze filhos possuía um pai diferente. “Porque ele num merecia ser citado em lugar algum. Aquele monstro não abusou só da minha irmãzinha não, mas de mim também. E tudo com o apoio e incentivo daquela que se dizia nossa mãe”.
Lucas contou que a história do vendedor de pamonhas surgiu a partir de uma paixão que ele tinha por um vizinho que era vendedor ambulante. “A criação do personagem vendedor de pamonhas foi uma homenagem ao Leandro, o grande amor da minha vida. A referência ao John Lennon é porque a nossa primeira noite de amor foi embalada ao som dos Beatles. O Leandro adorava as músicas deles, principalmente as que foram feitas pelo John Lennon”.
“O Leandro era um cara muito inteligente, politizado e virado também. Ele não era apenas um vendedor de pamonha, também lavava carros e dava aula de reforço para consegui uma grana. Inclusive estava se preparando para prestar vestibular para História naquele ano. Ele morreu dois dias depois que eu fugi de casa, na época eu ainda estava perambulando por Santa Isabel. O Leandro foi atropelado por um caminhoneiro bêbado, durante uma manhã em que trabalhava na estrada”, contou.
A respeito do episódio descrito no sexto dia do diário, sobre o assassinato de um pedófilo, Lucas conta que isso quase chegou a se concretizar, só que ao invés do vizinho caçador a vitima seria seu próprio pai. “Eu já não aguentava mais tanto sofrimento, por isso resolvi dar um basta nisso. Assim como na história, eu arrumei uma espingarda e tentei atirar nele, na justa hora em que ele se preparava para mais um abuso com a minha irmã. A sorte foi que o tiro pegou de raspão e desde aí, eu tive que fugir de casa, pois já estava impossível a convivência em família”.
Como teve que fugir apenas com a roupa do corpo John disse que acabou deixando o diário incompleto em casa e por esse motivo a história contada por John só prossegue até o oitavo dia. Antes de ir embora, me entregou uma foto dele com o Leandro e pediu para eu scanear. “Quero que você publique essa foto. Onde o Leandro estiver, tenho certeza que ele vai ficar feliz com isso” disse.
Abaixo o ultimo capítulo do diário de John Lennon

DIÁRIO DE LENNON (oitavo dia)


Para mim, o pior crime que existe é a pedofilia. Se eu fosse presidente do Brasil, criava uma lei para que todo pedófilo fosse morto aos pouquinhos dentro de um caldeirão de óleo fervendo. E mesmo assim, ainda seria pouco. Só quem já foi abusado sexualmente quando criança entende a minha revolta contra esses desgraçados.
Comecei o diário de hoje falando em pedofilia porque a Brenda, minha irmãzinha, ainda está sentindo na pele o trauma de ser torturada dessa forma brutal. Mas vamos deixar esse assunto ruim de lado porque isso me dá vontade de vomitar. E eu não quero estragar o meu dia.
Hoje eu também tenho um assunto muito legal para falar aqui. Quero falar de paixão. Nesse oitavo dia de registro, quero confessar que estou apaixonado. Não queria citar o nome da pessoa amada aqui para evitar confusão. A única coisa que posso dizer é que o amor da minha vida começa com a letra L e que me completa, no corpo e na alma literalmente.
Semana passada nós tivemos a nossa primeira noite de amor. Foi a coisa mais linda do mundo. Nossos corpos se entregaram ao som de uma das melhores bandas do mundo. Ou a melhor, como essa pessoa diz.
Confesso que tudo que queria agora era sair correndo, dizendo para todo mundo que estou loucamente apaixonado por essa pessoa. Mas, infelizmente não posso. Ainda não me sinto preparado para enfrentar o ódio da sociedade que condena um amor verdadeiro só porque esse amor foge aos padrões impostos por ela. Ah, mas o importante é que estou feliz. Amanhã nós marcamos de se encontrar de novo. E só de saber disso, minha perna fica bamba e o meu coração acelera...

Um comentário:

  1. No último capítulo dessa saga quero agradecer sua gentileza de ter compartilhado comigo a divulgação desta cria literária. Muito obrigado, querido. Que venham outras crias, ah e pode contar comigo também para qualquer tipo de divulgação. Afinal, comunicar é preciso!!

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