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terça-feira, 17 de agosto de 2010

O DIÁRIO DE LENNON (terceiro dia)

Em busca de John Lennon


Depois de ler todo o diário escrito pelo pequeno vendedor de pamonhas de Santa Isabel-PA e passar a semana inteira angustiado não contive minha curiosidade. Queria conhecer de perto o dono daquela história surpreendente. Saber mais detalhe sobre uma autobiografia que por ironia do destino caiu em minhas mãos.
Disposto a voltar ao local onde toda essa história começou, arrumei minha mochila com um kit de sobrevivência básico como água, biscoito, maçã, caderno de anotações e máquina fotográfica. Era o que precisava para me ajudar na missão “em busca de John Lennon”.
Decidi pegar a estrada de madrugada. Queria chegar cedo ao local onde a maioria dos ambulantes de Santa Isabel se concentra na BR-316. Não sou de acordar cedo, além do mais no domingo, quem me conhece sabe. Mas a história do John Lennon isabelense me movia. Era a pauta que eu pedia a Deus.
Cheguei ao exato local em que pretendia pouco depois que o sol acabara de nascer. Os primeiros raios solares ainda estavam despertando e eu já estava ao lado da estratégica “lombada gigante” da BR. No lugar tinha o dobro de vendedores de pamonhas da vez passada, além de outros dez ambulantes vendendo camarão, água, tangerina e biscoito de polvilho.
Perguntei para todos, sem exceção, se eles conheciam um vendedor chamado John Lennon. A resposta foi unânime. Não. Ninguém nunca ouviu falar. Mostrei a agenda da Seduc, falei das características que tinha lido sobre ele. Indaguei se não conheciam nenhum barzinho chamado “Bar da Loura”, local onde segundo o diário, a mãe do John trabalhava. Mas a resposta foi a mesma. Não.
Ninguém, nenhum daqueles vendedores jamais ouviu falar num puteiro chamado ‘Bar da Loura’ e muito menos num garoto chamado John Lennon Souza da Silva. E o pior de tudo. Falaram que segundo a lei da estrada (ou seja, a lei que eles mesmos inventaram), nenhum vendedor de outra cidade pode vender ali naquele local. Esse relato me fez na mesma hora descartar a possibilidade do John ser morador de outra cidade. E agora? “A lei aqui é bem clara. Se vier algum vendedor de outra área pra cá que não seja de Santa Isabel. A gente bota pra correr... Ah, bota!”, enfatizou em voz alta um vendedor de camarão, que não parecia nada feliz com a minha presença ali.
Logo após a conversa com os ambulantes e ainda muito confuso com aquela situação toda, fui tomar café numa lojinha de conveniência anexa a um posto de gasolina, a poucos metros dali. Dentro da loja, fui novamente surpreendido. A história do John voltava a me atormentar...


Abaixo publico na integra o terceiro capítulo do diário de John Lennon Souza da Silva.


O DIÁRIO DE LENNON (terceiro dia)

Como disse anteriormente, não sei até quando vou escrever este diário. Mas já cheguei ao terceiro dia. E caso, pare de escrever agora, nesse momentinho, as pessoas já vão saber, pelo menos um pouquinho da minha história. Mas acho que não vou parar tão cedo, não. Apesar do cansaço de um dia inteiro de trabalho, me sinto bem escrevendo. É como se estivesse registrando para sempre a minha história num documento que ficará por muitos anos aqui.
E outra coisa. Como parei de estudar por conta do meu trabalho. Escrever me deixa um pouco mais inteligente, não sei como. Mas me deixa. Acho que também serve de treinamento para quando eu, quem sabe um dia, retornar à escola. Jamais pensei em abandonar os meus estudos, pelo contrário, mais precisei fazer por livre e espontânea pressão. Minha mãe adoeceu por quase três meses e como sou o filho mais velho que ainda mora com ela, tive que carregar esse fardo sozinho e sustentar toda a família. E sem a ajuda de ninguém.
Dos meus seis irmãos, cinco são crianças e ainda muito novinhos para trabalhar e outro que tem quase a minha idade é deficiente físico e audiovisual. E, portanto, não trabalha. Mas não que ele não queira. O Lucas é um amor de pessoa, de um coração e de uma dignidade maior do que esse planeta. Mas enquanto eu tiver forças para ficar o dia todo trabalhando ele não vai trabalhar. “Oh, mano, me deixa trabalhar. A mãe disse que dá pra eu vender cigarro a noite lá no Bar da Loura”, ele me fala. E claro, eu não sou louco para permitir.
Primeiro porque essa Loura, que ele fala, é a dona do barzinho que a minha trabalha. Na verdade um puteiro disfarçado de barzinho que funciona na beira da estrada. Pensa numa mulher desgraçada, desumana e filha da puta é essa Loura. A minha mãe ficou doente durante dois meses e uns dias e essa loura não teve a coragem sequer de fazer uma visita em casa. Sendo que minha mãe adoeceu trabalhando no bar, quando um outro filha da puta espancou minha mãe depois de ter trepado com ela lá mesmo no estabelecimento da Loura. E mais. A desgraçada dessa Loura falou para a minha mãe não prestar queixa na policia se não iam descobrir que o bar funciona de forma irregular, sem nenhum tipo de alvará.
Com tudo isso como é que eu posso deixar o meu irmão especial trabalhar lá naquele bar vendendo cigarro. Claro que não. Eu não sou doido. Só não denunciei ainda aquela espelunca para a polícia porque a minha mãe disse que não sabe trabalhar com outra coisa e se o bar da Loura for fechado ela (minha mãe) vai estar desempregada. “Eu não sou mais aquela garotinha que vivia viajando de puteiro em puteiro, não. Hoje se eu sair lá da Loura não vão mais me aceitar em lugar nenhum. Eu não tenho mais aquele corpo de vinte anos atrás quando comecei nessa vida”, diz minha mãe, toda vez quando eu falo que vou denunciar a espelunca.
Mas todos esses conflitos que enfrento e todos os outros que certamente enfrentarei não me desanimam. Já falei para todo mundo aqui de casa. Um dia eu volto a estudar e ainda vou ser alguém na vida. Entre os meus planos estão: tirar a minha mãe daquela vida, porque trocadilhos à parte, eu cansei de ser um “filho da puta”; comprar uma casa para a minha família; colocar a Loura na cadeia e claro ser um grande escritor. Mas sei que para isso preciso vender muita pamonha ainda. E agora vou dormir, amanhã escrevo novamente, se não estiver muito cansado.


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