Seja Bem Vindo

Este Blog foi criado com o objetivo de possibilitar uma maior interação entre minhas atividades e àqueles que por elas se interessarem.
Espero que gostem.
Antecipo meus agradecimentos e não esqueça de deixar seu comentário.
Sugestões pelo e-mail.
Obrigado pela visita.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Entre suspeitas e sorrisos

Este conto que publico em meu blog foi escrito em 2007, e agora resolvi compartilhá-lo com vocês, pois como ele foi utilizado por mim numas das atividades do curso de Mídias na Educação, receio que meus rabiscos não serão mais anônimos.
Entre suspeitas e sorrisos
Voltava para casa naquele ônibus lotado quando percebi que alguém que sentava ao meu lado abria leves e doces sorrisos ao ler um livro.
Confesso que aqueles sorrisos que pareciam não dar a mínima para o mundo que estava a sua volta despertaram em mim um certo incomodo. Como que por repulsão levantei meu olhar e logo pude ver o garoto que tentava vender suas balas, dizendo em alto e bom tom que fazia aquilo para garantir o sustento de seus quatro irmãos e sua mãe, que segundo ele, estava desempregada e doente.
Não querendo me dar conta daquela realidade desviei o olhar e não pude deixar de observar naquela senhora que estava em pé a poucos metros de onde eu estava sentado. Aquela senhora, toda descabelada, já demonstrava sinais visíveis do cansaço. Muitos desses sinais expostos nas inevitáveis impressões que só o tempo é capaz de fazer em nossos rostos. Isto me fez refletir como ele, o senhor do tempo, é implacável conosco.
Enquanto isso, ao meu lado, um novo sorriso. Um sorriso que só um observador atento é capaz de perceber. Um daqueles despreocupado. Que sai entre os dentes e quase não consegue chegar aos lábios.
Fiquei curioso. Afinal, o que seria responsável por fazer alguém esquecer do mundo e sorrir de modo tão suave e misterioso.
De repente, meu corpo balançou.
Não lembro o motivo, mas foi nesse instante que quase sem querer que descobrir no fundo do ônibus um rapaz que logo me pareceu suspeito.
Observei-o por quase um minuto. Olhos ávidos, mirando-o minuciosamente como se procurasse por alguma coisa. Em minha cabeça minha imaginação começou a trabalhar.
O que será que aquele rapaz de corpo esquio, barba por fazer e uma toca preta na cabeça carregava naquela mochila? A que momento ele iria levantar e anunciar qual era o real objetivo de estar ali?
Imaginei-o levantando-se as pressas, dirigindo-se até o cobrador retirando um “três oitão” daquela mochila dizendo-lhe para passar toda a grana.
Não sei ao certo por que o considerei suspeito, só sei que uma sensação de medo invadiu meus pensamentos.
Foi aí que um choro de criança começou a me irritar. Não sei por que, mas me irritou.
Rumei meus olhos na direção daquele choro que parecia não querer mais parar. Encontrei uma jovem mãe vestida com uma roupa verde que mais parecia uma homenagem a floresta amazônica. Em seu colo um bebê que aparentava ter entre cinco a seis meses de vida, e pela maneira como chorava parecia também estar com muita fome.
Chegamos a mais uma parada e a jovem de blusa verde com aquele bebê chorão se encaminhou para a porta de saída do ônibus. Ela desceu e novamente voltei a observar naquele sorriso estranhamente agradável.
- Desculpe. Disse uma senhora que ao passar por onde nós estávamos acabou esbarrando suas sacolas naquele pedaço de papel mágico que hipnotizava quem lhe segurava.
Nem mesmo esse fato fez ela se desviar de sua leitura.
Mais virada de página. Outro sorriso e uma nova tentativa de descobrir do que se tratava aquela leitura. Tudo em vão. Só conseguir ver aquelas letrinhas microscópicas que alimentavam ainda mais a minha curiosidade.
Ouvir o soar do sinal. Alguém iria descer na próxima parada.
Nesse momento percebi que estava chegando a minha hora de descer também.
Pensei em perguntar do que se tratava tão envolvente leitura, mas um novo sorriso me fez esquecer dessa idéia. Não tinha o direto de profanar tão sagrado momento.
Ao levantar notei um novo sorriso, agora mais largo que todos os outros.
O ônibus parou. Comecei a caminhar. Desviava de uns, espremia-me entre outros. Alguns passos e licenças depois pisei no primeiro degrau da porta de saída. Desci e alguns segundos depois vi o ônibus e aquele sorriso indo embora.
Passados alguns minutos, já estava em frente a porta de minha casa e enfiei a mão no bolso e peguei as chaves. Abri a porta. Entrei. Tirei minha camisa impregnada de suor e cansaço por mais um dia de trabalho.
Antes de sentar levei minha mão ao outro bolso de minha calça jeans. Esperava encontrar minha carteira, mas acabei enfiando minha mão no vazio. Não havia nada ali. Confirmei essa informação com uma rapidez incrível. Tinha certeza que a tinha colocado ali.
Num ar de espanto, rapidamente recorri aos outros bolsos. Nada. Absolutamente minha carteira não estava mais comigo. Ela havia sumido como num passe de mágica.
Sentei e comecei a pensar no que poderia haver acontecido. Lembrei da ultima vez que a segurei. Foi no momento em que paguei ao cobrador minha passagem no ônibus.
Pensei mais um pouco. E como num raio me veio a cabeça aquele sorriso.
Sentei. E o que fiz foi apenas lamentar.
Tudo havia se consumado sob aquele sorriso que me pareceu insuspeitável.

Nenhum comentário:

Postar um comentário